terça-feira, 22 de novembro de 2011

Pablo

1


   Não perguntamos e ele também não. Apenas disse: "voy acompañalos un par de kilometros", ou algo assim, ele falava muito rápido na hora. Me pareceu feliz por encontrar companhia. No posto de Bahia Blanca, depois que as gurias que haviam descido junto com a gente conseguiram uma carona em 10 minutos, ficamos uma hora com Pablo. Neste tempo, ele vendeu um Blackberry para um motoqueiro que parou para tentar nos vender pães e uma câmera digital pequena para algum amigo deste motoqueiro do outro lado da rodovia.
   Ficamos desconfiados. Fava, sempre desconfiado, muito mais que eu. Quando um caminhoneiro que parei disse que levava os três até Rio Colorado, estava decidido que seríamos companheiros por "un par de Kilometros".



2


   Alto, loiro, falante e argentino. Este é Pablo. Não lembro quantos anos tem. Mas está indo em direção ao Sul desde o Peru. Ao sul tem um primo que pode lhe dar casa e ajudar a encontrar um emprego, mas se aparecer algo no caminho, serve também.
   Com muito mais estrada que nós, e provavelmente muito mais dificuldades superadas, é Pablo que, quando chegamos perto do ponto onde o caminhoneiro via nos deixar, aceita os sanduíches e as frutas que são oferecidas.
   Eu ia no banco do carona do caminhão. Pablo e Fava, no colchão que fica atrás dos bancos. O dono do caminhão dirigia, conversava e orientava Pablo a fazer o tererê. É da província de Missiones, perto do Brasil. Pede que eu alcance sua caixa de cd's. Escolhe um, pergunta se conhecemos. "Te dei o sol, te dei o mar..." gritam os auto-falantes. Temos que cantar e sorrir. Acabamos gargalhando.


3


   Cometemos um erro de caroneiros de primeira viagem: descemos do caminhão que nos levava num cruzamento ao invés de descer em um posto de gasolina. Cena de Road Movie: três homens caminhando com mochilas e malas; escuta-se apenas os passos e o som das rodas da mala de Pablo no asfalto.
   Começamos a caminhar. Enxergamos uma obra à frente, Pablo vai lidando com sua mala no piso ruim e caminha falando. Fala e gesticula com a mão que sobra.
   Quando nos aproximamos da obra, Pablo cumprimenta os trabalhadores como velhos amigos. Eles estavam parados sob a sombra de uma das máquinas observando a nossa chegada. Nos consideram loucos, parece. Acho que eu pensaria o mesmo.
   Perguntam que fazemos ali, da onde éramos. Eles são todos do Sul, menos um, que se aproxima depois, que é de Córdoba e já viajou "a dedo". Foi este que passou a se preocupar mais conosco. Baixinho, com o rosto moreno escondido abaixo do capacete, passou a parar todos os carros que passavam e perguntar se não podiam nos levar. Um casal de idade aceitou nos levar na caçamba de uma caminhonete até o próximo posto de gasolina.
   Eu e Fava nos sentamos em uma caixa que estava ali, Pablo encolheu seu corpanzil abaixo. Cantávamos Inmigrantes e Apanhador Só com os cabelos e as roupas voando no vento. Pablo, lá de baixo, protegido do vento nos observava.


4


   Os três em um posto de gasolina no meio do nada. Perto do cruzamento de algumas estradas, só isso. Fim de tarde, porém, quanto mais ao sul, mais tempo de sol, lembra Pablo. Na estrada, ninguém nem pensa em parar, quem sai do posto não pode nos levar. Desânimo e fome. Pablo parece tranquilo: compra um cereal que comemos como se fosse pipoca, passando de mão em mão. Um casal que viaja com um bebê pode levar um de nós, será Pablo. Enquanto esperamos o casal, outro carro se aproxima e pode levar eu e Fava. No carro que vai Pablo não cabe todas as malas, uma mala dele vai conosco.
   No dia seguinte, saímos caminhando por Puerto Madryn a procura de Pablo. É ele que nos acha, chega correndo de uma esquina que havíamos deixado para trás. Pablo parecer ter um acordo com o destino.
   Nos conta como chegou até lá. Devolvemos sua mala. Ele oferece um pouco de folha de coca que trouxe do Peru. Almoçamos nosso patê e os fiambres dele com pão. Nos conta que conseguiu um trabalho numa Peluqueria durante a tarde. Nos despedimos de um amigo.

Um comentário:

  1. Parece filme. Então tá dando certo.
    Boa sorte pra vocês, vão com Deus.
    E eu continuo acompanhando daqui.
    Abraço

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