quarta-feira, 30 de novembro de 2011
Paisagem
Em Ushuaia, todas as ruas que conheci tem uma vista linda. Casas coloridas e montanhas nevadas. Há apenas uma rua que exige esforço para que se veja uma bela paisagem. É nesta rua que estão todos os turistas.
domingo, 27 de novembro de 2011
Ushuaia
Quase 9 da noite, o Sol de Ushuaia insiste em brilhar. Caminhamos pela orla praticamente sozinhos. Passam algumas pessoas, todas moradores voltando para casa ou fazendo exercicio. Nos sentimos bem de estar naquela paisagem. Todos os turistas já estao em seus hotéis ou na rua de trás, de onde nao se ve nada. Aqui estamos com a melhor companhia: de um lado o porto, um navio velho que agora é só a casa de muitos pássaros, mais ao fundo, muitos barcos particulares repousam silenciosamente a espera de seus donos. Mais a frente, gaivotas parecem conversar, bem ao fundo, as montanhas de uma peninsula da ilha e nuvens de todas as cores que o céu consegue fazer. Do outro lado, a paisagem impressionate de um quadro brega: a cidade com os prédios de todos os tamanhos com as montanhas nevadas ao fundo.
Continuamos caminhando, é estranho pensar em jantar enquanto tem Sol. Coisa de se fazer no hospital, jantar com Sol. Olho para o fim da rua: o cinza do asfalto se transforma no verde das arvores que parecem subir a montanha até fazer parte dela e se transformar no branco da neve que brilha lá em cima, sob o Sol que brilha à noite.
Continuamos caminhando, é estranho pensar em jantar enquanto tem Sol. Coisa de se fazer no hospital, jantar com Sol. Olho para o fim da rua: o cinza do asfalto se transforma no verde das arvores que parecem subir a montanha até fazer parte dela e se transformar no branco da neve que brilha lá em cima, sob o Sol que brilha à noite.
Galera
"- Fala brasileiro aí, tchê!
- A galera tá fumando muita maconha!"
(HOSTAL, português do)
- A galera tá fumando muita maconha!"
(HOSTAL, português do)
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
Anoitecer
Diego e José nos levamo até Puerto Madryn. Os dois voltam do Norte depois de ir a uma festa eletrônica enorme em Buenos Aires e visitar um amigo em Mar del Plata. Diego nos conta que é Secretário de Cultura de Puerto Madryn depois que contei que estudei Cinema. Eles colocam música sertaneja brasileira também, mas em uma versão remixada.Mais tarde, Diego nos oferece ficar na casa dele.
O carro branco anda pela Ruta 3 em direção ao Sul, o pôr-do-sol é praticamente indescritível: o céu é uma mistura de azul e vermelho pelo anoitecer, com a escuridão da tempestade que chega do horizonte. Algumas nuvens são brancas, outras cinzas. As primeiras são iluminadas por trás pelo Sol e tomam diversas cores, as outras o escondem. O Sol toma aquela cor que nunca se sabe se é vermelho, amarelo ou laranja e escapa por alguns espaços entre as nuvens escuras.
Foi assim que conhecemos o céu do Sul.
O carro branco anda pela Ruta 3 em direção ao Sul, o pôr-do-sol é praticamente indescritível: o céu é uma mistura de azul e vermelho pelo anoitecer, com a escuridão da tempestade que chega do horizonte. Algumas nuvens são brancas, outras cinzas. As primeiras são iluminadas por trás pelo Sol e tomam diversas cores, as outras o escondem. O Sol toma aquela cor que nunca se sabe se é vermelho, amarelo ou laranja e escapa por alguns espaços entre as nuvens escuras.
Foi assim que conhecemos o céu do Sul.
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Pablo
1
Não perguntamos e ele também não. Apenas disse: "voy acompañalos un par de kilometros", ou algo assim, ele falava muito rápido na hora. Me pareceu feliz por encontrar companhia. No posto de Bahia Blanca, depois que as gurias que haviam descido junto com a gente conseguiram uma carona em 10 minutos, ficamos uma hora com Pablo. Neste tempo, ele vendeu um Blackberry para um motoqueiro que parou para tentar nos vender pães e uma câmera digital pequena para algum amigo deste motoqueiro do outro lado da rodovia.
Ficamos desconfiados. Fava, sempre desconfiado, muito mais que eu. Quando um caminhoneiro que parei disse que levava os três até Rio Colorado, estava decidido que seríamos companheiros por "un par de Kilometros".
2
Alto, loiro, falante e argentino. Este é Pablo. Não lembro quantos anos tem. Mas está indo em direção ao Sul desde o Peru. Ao sul tem um primo que pode lhe dar casa e ajudar a encontrar um emprego, mas se aparecer algo no caminho, serve também.
Com muito mais estrada que nós, e provavelmente muito mais dificuldades superadas, é Pablo que, quando chegamos perto do ponto onde o caminhoneiro via nos deixar, aceita os sanduíches e as frutas que são oferecidas.
Eu ia no banco do carona do caminhão. Pablo e Fava, no colchão que fica atrás dos bancos. O dono do caminhão dirigia, conversava e orientava Pablo a fazer o tererê. É da província de Missiones, perto do Brasil. Pede que eu alcance sua caixa de cd's. Escolhe um, pergunta se conhecemos. "Te dei o sol, te dei o mar..." gritam os auto-falantes. Temos que cantar e sorrir. Acabamos gargalhando.
3
Cometemos um erro de caroneiros de primeira viagem: descemos do caminhão que nos levava num cruzamento ao invés de descer em um posto de gasolina. Cena de Road Movie: três homens caminhando com mochilas e malas; escuta-se apenas os passos e o som das rodas da mala de Pablo no asfalto.
Começamos a caminhar. Enxergamos uma obra à frente, Pablo vai lidando com sua mala no piso ruim e caminha falando. Fala e gesticula com a mão que sobra.
Quando nos aproximamos da obra, Pablo cumprimenta os trabalhadores como velhos amigos. Eles estavam parados sob a sombra de uma das máquinas observando a nossa chegada. Nos consideram loucos, parece. Acho que eu pensaria o mesmo.
Perguntam que fazemos ali, da onde éramos. Eles são todos do Sul, menos um, que se aproxima depois, que é de Córdoba e já viajou "a dedo". Foi este que passou a se preocupar mais conosco. Baixinho, com o rosto moreno escondido abaixo do capacete, passou a parar todos os carros que passavam e perguntar se não podiam nos levar. Um casal de idade aceitou nos levar na caçamba de uma caminhonete até o próximo posto de gasolina.
Eu e Fava nos sentamos em uma caixa que estava ali, Pablo encolheu seu corpanzil abaixo. Cantávamos Inmigrantes e Apanhador Só com os cabelos e as roupas voando no vento. Pablo, lá de baixo, protegido do vento nos observava.
4
Os três em um posto de gasolina no meio do nada. Perto do cruzamento de algumas estradas, só isso. Fim de tarde, porém, quanto mais ao sul, mais tempo de sol, lembra Pablo. Na estrada, ninguém nem pensa em parar, quem sai do posto não pode nos levar. Desânimo e fome. Pablo parece tranquilo: compra um cereal que comemos como se fosse pipoca, passando de mão em mão. Um casal que viaja com um bebê pode levar um de nós, será Pablo. Enquanto esperamos o casal, outro carro se aproxima e pode levar eu e Fava. No carro que vai Pablo não cabe todas as malas, uma mala dele vai conosco.
No dia seguinte, saímos caminhando por Puerto Madryn a procura de Pablo. É ele que nos acha, chega correndo de uma esquina que havíamos deixado para trás. Pablo parecer ter um acordo com o destino.
Nos conta como chegou até lá. Devolvemos sua mala. Ele oferece um pouco de folha de coca que trouxe do Peru. Almoçamos nosso patê e os fiambres dele com pão. Nos conta que conseguiu um trabalho numa Peluqueria durante a tarde. Nos despedimos de um amigo.
Não perguntamos e ele também não. Apenas disse: "voy acompañalos un par de kilometros", ou algo assim, ele falava muito rápido na hora. Me pareceu feliz por encontrar companhia. No posto de Bahia Blanca, depois que as gurias que haviam descido junto com a gente conseguiram uma carona em 10 minutos, ficamos uma hora com Pablo. Neste tempo, ele vendeu um Blackberry para um motoqueiro que parou para tentar nos vender pães e uma câmera digital pequena para algum amigo deste motoqueiro do outro lado da rodovia.
Ficamos desconfiados. Fava, sempre desconfiado, muito mais que eu. Quando um caminhoneiro que parei disse que levava os três até Rio Colorado, estava decidido que seríamos companheiros por "un par de Kilometros".
2
Alto, loiro, falante e argentino. Este é Pablo. Não lembro quantos anos tem. Mas está indo em direção ao Sul desde o Peru. Ao sul tem um primo que pode lhe dar casa e ajudar a encontrar um emprego, mas se aparecer algo no caminho, serve também.
Com muito mais estrada que nós, e provavelmente muito mais dificuldades superadas, é Pablo que, quando chegamos perto do ponto onde o caminhoneiro via nos deixar, aceita os sanduíches e as frutas que são oferecidas.
Eu ia no banco do carona do caminhão. Pablo e Fava, no colchão que fica atrás dos bancos. O dono do caminhão dirigia, conversava e orientava Pablo a fazer o tererê. É da província de Missiones, perto do Brasil. Pede que eu alcance sua caixa de cd's. Escolhe um, pergunta se conhecemos. "Te dei o sol, te dei o mar..." gritam os auto-falantes. Temos que cantar e sorrir. Acabamos gargalhando.
3
Cometemos um erro de caroneiros de primeira viagem: descemos do caminhão que nos levava num cruzamento ao invés de descer em um posto de gasolina. Cena de Road Movie: três homens caminhando com mochilas e malas; escuta-se apenas os passos e o som das rodas da mala de Pablo no asfalto.
Começamos a caminhar. Enxergamos uma obra à frente, Pablo vai lidando com sua mala no piso ruim e caminha falando. Fala e gesticula com a mão que sobra.
Quando nos aproximamos da obra, Pablo cumprimenta os trabalhadores como velhos amigos. Eles estavam parados sob a sombra de uma das máquinas observando a nossa chegada. Nos consideram loucos, parece. Acho que eu pensaria o mesmo.
Perguntam que fazemos ali, da onde éramos. Eles são todos do Sul, menos um, que se aproxima depois, que é de Córdoba e já viajou "a dedo". Foi este que passou a se preocupar mais conosco. Baixinho, com o rosto moreno escondido abaixo do capacete, passou a parar todos os carros que passavam e perguntar se não podiam nos levar. Um casal de idade aceitou nos levar na caçamba de uma caminhonete até o próximo posto de gasolina.
Eu e Fava nos sentamos em uma caixa que estava ali, Pablo encolheu seu corpanzil abaixo. Cantávamos Inmigrantes e Apanhador Só com os cabelos e as roupas voando no vento. Pablo, lá de baixo, protegido do vento nos observava.
4
Os três em um posto de gasolina no meio do nada. Perto do cruzamento de algumas estradas, só isso. Fim de tarde, porém, quanto mais ao sul, mais tempo de sol, lembra Pablo. Na estrada, ninguém nem pensa em parar, quem sai do posto não pode nos levar. Desânimo e fome. Pablo parece tranquilo: compra um cereal que comemos como se fosse pipoca, passando de mão em mão. Um casal que viaja com um bebê pode levar um de nós, será Pablo. Enquanto esperamos o casal, outro carro se aproxima e pode levar eu e Fava. No carro que vai Pablo não cabe todas as malas, uma mala dele vai conosco.
No dia seguinte, saímos caminhando por Puerto Madryn a procura de Pablo. É ele que nos acha, chega correndo de uma esquina que havíamos deixado para trás. Pablo parecer ter um acordo com o destino.
Nos conta como chegou até lá. Devolvemos sua mala. Ele oferece um pouco de folha de coca que trouxe do Peru. Almoçamos nosso patê e os fiambres dele com pão. Nos conta que conseguiu um trabalho numa Peluqueria durante a tarde. Nos despedimos de um amigo.
Trem
5
Nos aproximamos de Bahia Blanca. Conversamos com os outros dois que iam no banco de trás: um baixinho moreno que está indo trabalhar e um outro alto, loiro e falante, se chama Pablo. Descobrimos que Pablo e as gurias que iam mais ao fundo do vagão também vão pegar carona. Formamos um grupo.
Elas conhecem o caminho, estão voltando para casa. Duas puxam a frente, são mais velhas. Uma trabalha colocando piercings, a outra faz artesanato. A terceira é mais falante e conversa mais com a gente. A última, mais quieta, faz alguns comentários enquanto caminhamos e falamos.
Atravessamos o centro de Bahia Blanca. Sete caminhantes, com malas mochilas e bolsas. Passamos por faixas de protesto em frente ao tribunal da cidade, pedem justiça. Nossos companheiros não sabem explicar porque. Subimos no onibus que vai até a Ruta 3. Chegou a hora das caronas.
Nos aproximamos de Bahia Blanca. Conversamos com os outros dois que iam no banco de trás: um baixinho moreno que está indo trabalhar e um outro alto, loiro e falante, se chama Pablo. Descobrimos que Pablo e as gurias que iam mais ao fundo do vagão também vão pegar carona. Formamos um grupo.
Elas conhecem o caminho, estão voltando para casa. Duas puxam a frente, são mais velhas. Uma trabalha colocando piercings, a outra faz artesanato. A terceira é mais falante e conversa mais com a gente. A última, mais quieta, faz alguns comentários enquanto caminhamos e falamos.
Atravessamos o centro de Bahia Blanca. Sete caminhantes, com malas mochilas e bolsas. Passamos por faixas de protesto em frente ao tribunal da cidade, pedem justiça. Nossos companheiros não sabem explicar porque. Subimos no onibus que vai até a Ruta 3. Chegou a hora das caronas.
Gauchas
"- En Bahía Blanca están las mejores, acá son medio gorditas, mira, esta talvez sea la más GAUCHITA!" (QUEBRADO, Cristian do pára-brisa)
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Trem
4
Ao amanhecer, estação por estação, o vagão esvazia e todos passam a ter um banco exclusivo. Sabiamos que a chegada deveria ser entre 9 e 10 horas, porém, por perto das 8, todas aquelas mulheres que estavam em quase todo o vagão, comecaram a se arrumar. Espelhos, batons, maquiagem e todo o mais que existe nas bolsas femininas para estes fins aparecem por todos os lados. Começamos a nos despertar, uma das mulheres pede para o Fava virar um pouco da nossa água para que ela lave as mãos. Ainda dormindo, ele vira e o corredor fica molhado.
Todas se arrumam por muito tempo. Se fosse noite a aposta seria que estavam indo até uma festa. Observamos. Nos perguntamos se vamos chegar mais cedo. Imaginamos as possibilidades.
O trem para. Elas descem com suas bolsas e filhos. Ainda não é Bahia Blanca.
Um dos três homens que viajavam atrás do nosso banco, chega perto da gente para observar a cidade que fica para trás pela nossa janela. Ele é baixinho e parece o capitão do desenho do Tim-Tim. "hay un carcere acá. Son mujeres de encarcerados".
Jeremias estava indo ver seu pai.
Ao amanhecer, estação por estação, o vagão esvazia e todos passam a ter um banco exclusivo. Sabiamos que a chegada deveria ser entre 9 e 10 horas, porém, por perto das 8, todas aquelas mulheres que estavam em quase todo o vagão, comecaram a se arrumar. Espelhos, batons, maquiagem e todo o mais que existe nas bolsas femininas para estes fins aparecem por todos os lados. Começamos a nos despertar, uma das mulheres pede para o Fava virar um pouco da nossa água para que ela lave as mãos. Ainda dormindo, ele vira e o corredor fica molhado.
Todas se arrumam por muito tempo. Se fosse noite a aposta seria que estavam indo até uma festa. Observamos. Nos perguntamos se vamos chegar mais cedo. Imaginamos as possibilidades.
O trem para. Elas descem com suas bolsas e filhos. Ainda não é Bahia Blanca.
Um dos três homens que viajavam atrás do nosso banco, chega perto da gente para observar a cidade que fica para trás pela nossa janela. Ele é baixinho e parece o capitão do desenho do Tim-Tim. "hay un carcere acá. Son mujeres de encarcerados".
Jeremias estava indo ver seu pai.
Trem
3
No banco atrás do nosso vão três homens. Conversam alto. Pedem para fechar o vidro pois entra vento direto neles. Um deles coloca cúmbia para tocar no celular, mas não dura muito tempo. Um homem passa gritando "reservas para cenar!".
Na frente do vagão um homem alto, de cabelos brancos usando um casaco de lã com botões, levanta-se a toda hora distribuindo copos de refrigerante e sanduíches para a família. Quando levanta-se, o casaco, aberto, balança no ritmo do trem.
No banco da frente, junto com Jeremias, mais duas criancas e duas mulheres. Ao nosso lado, a frente e atrás, muitas mulheres, varias com crianças no colo. Ao fundo, quatro amigas viajam juntas.
Olho cada uma dessas pessoas e tento imaginar as historias que carregam. Mais tarde descobriria que havia errado todas. O homem que viajava ao nosso lado levantou para fumar e ficou conversando com alguém lá na frente. Já é noite, não se vê nada pela janela. Eu e Fava usamos uma mochila como travesseiro e tomamos conta do banco.
No banco atrás do nosso vão três homens. Conversam alto. Pedem para fechar o vidro pois entra vento direto neles. Um deles coloca cúmbia para tocar no celular, mas não dura muito tempo. Um homem passa gritando "reservas para cenar!".
Na frente do vagão um homem alto, de cabelos brancos usando um casaco de lã com botões, levanta-se a toda hora distribuindo copos de refrigerante e sanduíches para a família. Quando levanta-se, o casaco, aberto, balança no ritmo do trem.
No banco da frente, junto com Jeremias, mais duas criancas e duas mulheres. Ao nosso lado, a frente e atrás, muitas mulheres, varias com crianças no colo. Ao fundo, quatro amigas viajam juntas.
Olho cada uma dessas pessoas e tento imaginar as historias que carregam. Mais tarde descobriria que havia errado todas. O homem que viajava ao nosso lado levantou para fumar e ficou conversando com alguém lá na frente. Já é noite, não se vê nada pela janela. Eu e Fava usamos uma mochila como travesseiro e tomamos conta do banco.
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
Trem
1
Conhecemos Natureza na "Noche de los Museos" em Buenos Aires. Brasileira, mora há alguns anos em Buenos Aires. Nos apresentou alguns amigos e fomos com eles tomar cerveja e Fernet con Coca.
Foi ela quem nos acompanhou até a estação Constitucion antes de entrarmos no trem para Bahia Blanca. Muita gente nos alertou para ter cuidado por lá. Não vimos nada de errado. Apenas olhamos, encantados, as paredes enormes, as passagens em arcos, a quantidade incalculável de pessoas, os detalhes arquitetônicos e o movimento dos trens, tão estranho a brasileiros.
Conversávamos, eu e Natureza, perto do canto onde tínhamos colocado as mochilas, Fava chegava com um pancho e duas barras de Hamlet. O tempo tinha passado, tínhamos que correr até o trem.
2
Vou no centro do banco marrom com o estofamento rasgado. Ao meu lado esquerdo, na janela, um senhor baixo, que carrega uma jaqueta e várias sacolas. Seu rosto, simpático, exibe marcas de quem já trabalhou muito. Do meu lado direito, Fava observa toda aquela gente tão impressionado quanto eu.
Começo a conversar com nosso companheiro de viagem sem que nos apresentássemos. Me conta que vai ao Sul trabalhar, estava procurando em Buenos Aires, mas sabe trabalhar no campo. A familia é de Moreno, tem filhos e esposa. Fava faz Malabares ao meu lado. Um garoto de 7 anos levanta-se no banco da frente e vira para olhar as manobras, se chama Jeremias.
Muitos estrangeiros estão comprando terras lá no Sul - me conta nosso colega de banco - a terra é muito boa, pagam bem. Andam comprando no minimo 800 hectares. Não consigo imaginar quantos anos tem. Conto que vamos até Ushuaia, ele me fala de um amigo que foi para lá e nunca mais voltou a Moreno. Trabalha e ganha bem. Não consigo compreender tudo, fala muito rápido e com expressões que não conheço.
Jeremias toma conta de todas as atenções. Rosto claro, tímido, sorriso sincero. Fava o convence a pegar uma das bolas dos malabares, que arremessa em direção a ele. Ele salta garagalhadas das mais sinceras que já ouvi. Falamos de futebol. "soy de River" diz Jeremias. "un chico esperto" diz o homem ao meu lado.
Conhecemos Natureza na "Noche de los Museos" em Buenos Aires. Brasileira, mora há alguns anos em Buenos Aires. Nos apresentou alguns amigos e fomos com eles tomar cerveja e Fernet con Coca.
Foi ela quem nos acompanhou até a estação Constitucion antes de entrarmos no trem para Bahia Blanca. Muita gente nos alertou para ter cuidado por lá. Não vimos nada de errado. Apenas olhamos, encantados, as paredes enormes, as passagens em arcos, a quantidade incalculável de pessoas, os detalhes arquitetônicos e o movimento dos trens, tão estranho a brasileiros.
Conversávamos, eu e Natureza, perto do canto onde tínhamos colocado as mochilas, Fava chegava com um pancho e duas barras de Hamlet. O tempo tinha passado, tínhamos que correr até o trem.
2
Vou no centro do banco marrom com o estofamento rasgado. Ao meu lado esquerdo, na janela, um senhor baixo, que carrega uma jaqueta e várias sacolas. Seu rosto, simpático, exibe marcas de quem já trabalhou muito. Do meu lado direito, Fava observa toda aquela gente tão impressionado quanto eu.
Começo a conversar com nosso companheiro de viagem sem que nos apresentássemos. Me conta que vai ao Sul trabalhar, estava procurando em Buenos Aires, mas sabe trabalhar no campo. A familia é de Moreno, tem filhos e esposa. Fava faz Malabares ao meu lado. Um garoto de 7 anos levanta-se no banco da frente e vira para olhar as manobras, se chama Jeremias.
Muitos estrangeiros estão comprando terras lá no Sul - me conta nosso colega de banco - a terra é muito boa, pagam bem. Andam comprando no minimo 800 hectares. Não consigo imaginar quantos anos tem. Conto que vamos até Ushuaia, ele me fala de um amigo que foi para lá e nunca mais voltou a Moreno. Trabalha e ganha bem. Não consigo compreender tudo, fala muito rápido e com expressões que não conheço.
Jeremias toma conta de todas as atenções. Rosto claro, tímido, sorriso sincero. Fava o convence a pegar uma das bolas dos malabares, que arremessa em direção a ele. Ele salta garagalhadas das mais sinceras que já ouvi. Falamos de futebol. "soy de River" diz Jeremias. "un chico esperto" diz o homem ao meu lado.
domingo, 13 de novembro de 2011
No caminho, todos carregam tudo que já viram e sentiram. Essa bagagem pode tornar-se um peso ou um motor. Por vezes, podemos escolher, entre transformar algo em peso ou motor, mas na maior parte do tempo, reagimos ao mundo da forma que toda esta bagagem nos talhou. Isso acontece ao longo do tempo, sem percebermos.
Acredito que por reacoes deste tipo, principalmente minhas, acabamos sentados em uma pequena praca sobre o canteiro que separa as ruas Lima e 9 de Julio. Ao nosso lado, dois caras muito magros, com cortes de cabelos indescritiveis conversam muito tranquilamente, em voz baixa, apontando um caderno. Na nossa frente, um homem muito gordo esta sentado ao lado de duas malas enormes. Um casal de pessoas velhas passa mexendo em todas as lixeiras da praca. Os dois sorriem, lhes faltam dentes. O homem gorda levanta. Após alguns instantes, com uma mala em cada ombro, sai caminhando lentamente, enquanto sua barriga enorme balanca sobre a camiseta branca e justa. Ao fundo, um homem cego divide um refrigerante de uma marca que nao conheco com um casal que parecem ser seus filhos. Conversam como velhos amigos. Em silencio, Fava desenha e eu escrevo. Descansamos para a estrada amanha.
Acredito que por reacoes deste tipo, principalmente minhas, acabamos sentados em uma pequena praca sobre o canteiro que separa as ruas Lima e 9 de Julio. Ao nosso lado, dois caras muito magros, com cortes de cabelos indescritiveis conversam muito tranquilamente, em voz baixa, apontando um caderno. Na nossa frente, um homem muito gordo esta sentado ao lado de duas malas enormes. Um casal de pessoas velhas passa mexendo em todas as lixeiras da praca. Os dois sorriem, lhes faltam dentes. O homem gorda levanta. Após alguns instantes, com uma mala em cada ombro, sai caminhando lentamente, enquanto sua barriga enorme balanca sobre a camiseta branca e justa. Ao fundo, um homem cego divide um refrigerante de uma marca que nao conheco com um casal que parecem ser seus filhos. Conversam como velhos amigos. Em silencio, Fava desenha e eu escrevo. Descansamos para a estrada amanha.
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
Casa Rosada
Alinhados na Praca em frente a Casa Rosada: um homem alto, com cerca de 40 anos. Moletom, bermudas, meia e tênis. "se espicha" todo, parece ter encerrado o exercício do dia e sentado em um banco da praca; um casal conversa com as testas coladas. Entre algumas frases, beijam-se. Ela aperta o braço dele constantemente, parece uma despedida; dois homens com traços indigenas parecem descansar. Levantam-se e seguem para o mesmo lado, sem trocar palavra alguma. Por fim, um homem careca, alto e um pouco gordo está sentado usando fones de ouvido. Vestindo preto da cabeça aos pés, balança os dedos no ritmo da música que escuta. Olha o horizonte, parece esperar.
Um pouco mais adiante, em outro banco, Tadeo toca violão e canta. Faz isso no volume exato para que sinta que está fazendo, sem nenhuma intenção de arrebatar uma plateia. Vou conversar com ele, me diz que está ali para aproveitar o sol. Acha que as pessoas correm demais. Depois, cantou uma canção para que eu escutasse. Por fim, deixei-o sozinho com a sua música e o sol, que para ele, devia ser sempre aproveitado.
Alguns minutos depois. Luzes piscantes começam a iluminar a Casa Rosada. Ficamos a nos perguntar se Cristina estava lá dentro.
Um pouco mais adiante, em outro banco, Tadeo toca violão e canta. Faz isso no volume exato para que sinta que está fazendo, sem nenhuma intenção de arrebatar uma plateia. Vou conversar com ele, me diz que está ali para aproveitar o sol. Acha que as pessoas correm demais. Depois, cantou uma canção para que eu escutasse. Por fim, deixei-o sozinho com a sua música e o sol, que para ele, devia ser sempre aproveitado.
Alguns minutos depois. Luzes piscantes começam a iluminar a Casa Rosada. Ficamos a nos perguntar se Cristina estava lá dentro.
Quilmes
"- Donde son?
- De Brasil.
- Entón, una Quilmes ESTÚPIDAMENTE GELADA PRA CARAMBA!" (CAMINITO, garçom do).
"- No tienes Facebook?
- No, no, problemas con novias." (ANTIGAS, Gustavo da loja de máquinas)
- No, no, problemas con novias." (ANTIGAS, Gustavo da loja de máquinas)
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Padre Jairo
"- Entonces, Padre Jairo, en esta plaza que lo Papa estuvo?
- Sí, claro, fue ac... *Johnny, la gente está muy loca!*
- Chicos, solo un ratito." (JAIRO, Padre)
- Sí, claro, fue ac... *Johnny, la gente está muy loca!*
- Chicos, solo un ratito." (JAIRO, Padre)
Obelisco
Tres casais em frente ao Obelisco, embaixo da bandeira Argentina. Um homem e uma mulher vendem artesanato. Outro casal: ele alto, cabelos escuros, pele branca, vestindo uma camiseta com grandes letras e óculos escuros; ela com um chapéu sobre os cabelos loiros, vestindo uma camiseta branca, calcas pretas. Os dois se revesam tirando fotos com o Obelisco ao fundo. O ultimo casal pode parecer uma pessoa só para algumas das pessoas apressadas que passam por ali. Deitadas sob o sol que se poe em Buenos Aires, eles trocam beijos e carinhos ignorando a todos.
Ao pé do Obelisco, faixas e pessoas se reunindo. Cada vez chegam mais pessoas e as faixas multiplicam-se na mesma proporcao. Todas as pessoas com um triste destino: lutar por uma causa que vale a propria vida, mas esta causa nunca faz os seus olhos brilharem. Os "Padres del Obelisco" estao comecando uma uniao para resolver o que estragou a vida de todos eles: a distancia de seus filhos. Nao a distancia fisica, mas a proibicao, atraves da lei, de verem seus filhos. Muitas historias tristes. Alguns chegam com boas noticias sobre avancos de um caso ou outro, mas nem o exemplo do filho que exigiu ver o proprio pai fez os olhos daquela pequena multidao brilharem. Pai e filho sao uma ilha de alegria ao se abracarem sob os aplausos.
Ao pé do Obelisco, faixas e pessoas se reunindo. Cada vez chegam mais pessoas e as faixas multiplicam-se na mesma proporcao. Todas as pessoas com um triste destino: lutar por uma causa que vale a propria vida, mas esta causa nunca faz os seus olhos brilharem. Os "Padres del Obelisco" estao comecando uma uniao para resolver o que estragou a vida de todos eles: a distancia de seus filhos. Nao a distancia fisica, mas a proibicao, atraves da lei, de verem seus filhos. Muitas historias tristes. Alguns chegam com boas noticias sobre avancos de um caso ou outro, mas nem o exemplo do filho que exigiu ver o proprio pai fez os olhos daquela pequena multidao brilharem. Pai e filho sao uma ilha de alegria ao se abracarem sob os aplausos.
Rodoviaria de Tacuarembo
Vento frio entrando pela porta. Sentado em um banco, escrevo. Um homem muito magro com um nariz grande e uma expressao sofrida entra pela porta. Ele carrega um guarda-chuva de uma cor estranha: algo entre um marrom claro e um amarelo "queimado". O boné em sua cabeça está molhado. Chove lá fora. Uma senhora de muita idade passa de capa e guarda-chuva pretos, ambos molhados. A touca preta enterrada na cabeça escapou da água. Baixo a cabeça para escrever, quando levanto, nosso ônibus jà chegou. Conversamos com mochileiros europeus que vao passar um ano viajando pela América Latina, querem ir até Salto agora. Os outros passageiros já subiram, hora de guardar as malas no bagageiro. Subimos, nossos lugares sao na frente, nao gosto da sensaçao que se tem aqui nas curvas. Chove e estou cansado, dormirei e logo será Paysandu.
Contraseña
"Ustedes no comprenden nada porque son brasileños." (HOSTEL, Dona do)
domingo, 6 de novembro de 2011
Fazendo as malas
Tudo ali. Os viajantes depositam item por item, peça por peça, tudo que vão levar. Em cima de uma cama, jogado no sofá. Tudo ali, pouco a pouco. Calças, camisetas, bermuda, moletons, cuecas, meias, casacos, escova de dente, pasta de dente, luvas, touca e boina. Bolas de malabares, câmera, mini-computador. Umas folhas para rascunhar linhas e letras. Algo que distraia o estômago. Tudo ali.
A vida em uma mala. Temos muito mais que precisamos, pode-se pensar. O necessário, somente o necessário – cantava aquele garoto da floresta. Diminuir o que se leva, para aumentar o que se enxerga. Como o gosto amargo do remédio, que faz mal para fazer bem. Como as palavras duras que fazem uma criança chorar, mas também a fazem aprender. Qualquer lugar no tempo e no espaço traz problemas, necessidades e desejos, a mochila nas costas e o pé na estrada permitem escolher quais possuir.
ao Sul
Saímos de casa com nossas mochilas e algum dinheiro em direção ao Sul. Vamos seguir até que não haja mais terra nesta direção. Neste blog: cenas do Sul, convertidas em textos e ilustrações. Linhas e Letras que tomam forma ao Sul, que tomam a forma do Sul. Cenas que registram lugar, tempo e espaço, mesmo que tudo isso seja relativo.
Textos de Leonardo Peixoto e ilustrações de Alexandre Favaretto
Textos de Leonardo Peixoto e ilustrações de Alexandre Favaretto
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